Conto da faculdade
""Esse é o meu problema. Eu nunca acho que o que tenho é bom. Nunca sei se o que sei é valoroso. Nunca dei valor ao que tinha, nem ao que tenho agora.
Nunca amei alguém na vida. Não acho que deva ser grande coisa. Pra mim, as pessoas exageram muito. Todas elas. Demonstram afeto em público, são alegres e felizes demais, riem demais.
Não rio muito. Claro que uma boa piada faz qualquer um rir. Não sou insensível. Apenas acho que a alegria é coisa que dá e passa, uma coisa fútil e rápida, não algo que fica permanente na vida de alguém.
Acho que se eu risse como os outros riem, do jeito que riem, apenas me tornaria mais um deles. Um trabalho chato, uma penca de filhos, reclamações, stress, televisão, uma mulher que não te ama mas fala "Oi amor!".
"Como foi o trabalho?", "Papai, quero sorvete!", "Pai, ele puxou meu cabelo!", "Não, hoje não, amor, tô com dor de cabeça.", "Quando você vai largar sua mulher? Você me prometeu que se divorciaria e casaria comigo!".
Tudo isso me enjoa. Chego a pensar que, se for pra viver assim, sobreviver assim, não, muito obrigado, põe na conta que eu já vou-me embora. Prefiro, então, não rir, não ser mais um dessa maldita prole.
Será que as pessoas não vêem? Elas não são felizes. Lutam a vida inteira pra dizer "Valeu à pena". Pois não, não valeu. Se quer saber, sua vida foi um lixo. Completamente descartável. Nasceu, cresceu, se apaixonou, casou, teve filhos, morreu.
As vidas dessas pessoas se comparam com as dos animais irracionais. Nascer, crescer, acasalar, copular, ter filhos, morrer. Então, me diga, valeu à pena ser um animal irracional? Se é pra ser irracional, por que não nasceu um porco ou uma sanguessuga, algo assim?
A vida é mais que isso. Bem, deve ser mais que isso, ou então Deus é um completo idiota que brinca de SimCity. Não é possível que o amor seja tão grande assim para que mude a vida e a maneira de pensar assim, tão drasticamente. Não é possível que com o amor a vida tenha algum sentido.
Gostaria de amar. Uma vez que fosse, só para que eu tivesse como saber se vale tudo isso. Se acho algumas garotas bonitas? Claro, óbvio, sou um homem, afinal. Não sou insensível, como já disse. Mas amor e sexo são coisas opostas.
Quem inventou o amor? O que é o amor? É dor que desatina sem doer? É esplendor magnificente que faz a vida ser boa? Ou será que as pessoas só estão exagerando mais uma vez?"
-Foi você que escreveu isso? - ela disse rindo.
-Ei, ei, solta isso! Deixa de ser intrometida! Tava só desabafando, tá bom? Você não tem nada a ver com isso!
-Calma, calma. Mas me diz, é sério isso que você escreveu aqui? - ela disse ainda rindo.
-Sinceramente, não sei. Não tenho certeza se é isso que eu penso.
-Vai, fala logo, pára de esconder! Deixa de ser bobo e me conta. Vamos, eu tenho ombro de aço inox.
-Você quer saber? É sério sim, por quê? Qual o problema, hein? - disse enquanto ficava vermelho.
-Nossa, se isso é sério então você precisa viver, cara. Sai do seu mundinho e pára de bobeiras. Se isso aqui é sério, medidas sérias têm de ser tomadas, hein. Daqui a pouco vai vir com papo de suicida, depois vai escrever uma carta e então me deixará só.
-Como se você se importasse com isso. Comigo.
-E como não!? Olha só, pode sté ser que você não ligue pros outros, muito menos pra mim, que apenas sou sua amiga, mas não pense que isso faz eu gostar menos de você, safadinho.
-Nhé. Agora sai da minha escrivaninha e vai brincar com minha irmã lá em baixo enquanto eu queimo isso, vai.
-Você disse que vai queimar isso? - perguntou, esbugalhando os olhos.
-Sim, sim, claro. Não quero mais passar por isso não. Não vale à pena.
-Como a vida?
-Pára com isso você, agora. Saco! Posso nem dizer o que eu penso agora!
-Poder você pode. Mas da próxima vez, em vez de papel, me use como desabafadora oficial, tá?
-Tá.
-Você não vai se esquecer não, vai?
-Não.
-Ó, tô acreditando em você. Depois não quero ver mais papéis como esse por aí.
-Pó deixá. - disse, batendo de leve no ombro dela.
-Que tal brincarmos nós dois com sua irmã lá embaixo?
-Tô muito afim não. Tenho que trabalhar ainda muito hoje.
-Quer ajuda, então?
-Não posso receber ajuda. Tenho que fazer um texto meu pra faculdade. Tem que ser meu, não meu e seu.
-Texto? Sobre o quê?
-Amor na vida das pessoas.
-Que tal colocarmos esse texto seu aqui? Tá mointo bom, hein, vou te dizer uma coisa. Bom mesmo, sem brincadeira.
-Não, tem que ser um conto.
-Um conto de amor, hã? Quero ver como você vai sair dessa cilada. Depois de tudo aquilo que você escreveu e com toda sua falta de experiência, vai ser difícil. Só quero ver como que vai ficar.
-Tá, você vai me ajudar ou não?
-Não foi você que disse que não poderia ter ajuda?
-Sim, mas tô pensando numa coisa aqui, e vou precisar de você.
-Pra quê?
-Bem, pra praticamente nada, só quero que você fique aqui conversando comigo, com esse seu jeitinho gracioso. Só quero ter sua companhia.
-Gracioso aqui é você. Não me coloca no meio diso não.
-Você não é graciosa não, - continuou, enquanto enrubescia - é também linda e inteligente.
-É o que eu tô pensando...?
-You are the love of my life, my beautiful.
-E você é meu também, meu lindo.
-Te amo e agora sei que tudo vale à pena mesmo. Obrigado por me abrir os olhos, minha deusa.
-Será isso real...?"
Jânio da Silva Sato - Terceiro semestre - Letras - UFRJ
8 comments:
putz, você quer que eu faça o quê com isso?
quer dizer, isso é um relato autobiográfico?
é aquela lá comentando de novo...
menino luciano, talvez não seja uma coisa muito importante, mas eu queria te dizer que pra mim, você é o professor de literatura do primeiro ano do meu colégio. isso é bom, eu acho. outra coisa: (vou parecer a tia velha falando, mas isso é problema meu) amar é bom, às vezes. senão, você pode acabar ficando o mesmo professor de literatura para o resto da vida. se quiser ahm... entender isso que eu escrevi, pode entrar em contato via 0800.
Bem, muito bem. Primeiro: do seu ou do nosso colégio? (porque, intencionalmente, você se escooonde)
Segundo: fico até vermelhinho quando falam assim, "o professor de literatura" é demais pra mim, faz assim não, ôh.
Terceiro: eu amo sim, já amei algumas vezes, mas todas as tentativas foram falhas. Desse jeito, acho que acabo ficando no mesmo, ou quem sabe até pior que antes. Então, se souber de alguém bom pra mim, ou alguém que atualmente goste de mim, não deixe de me avisar. Vai ver só assim conseguirei amar de uma maneira "sadia", digamos.
Ah, e muito obrigado por tudo, seja quem for.
E pra você, Tio Árvore, deixa que eu cuido da seqüência. Acho que esse conto deverá ser meu, cheguei a me arrepiar quando pensei que você já tinha dado continuidade.
Hahah, professor de literatura! Que bonitinho... hehehehehehheh... só pra dizer que nao fui eu nao que escrevi isso, eu nao me aguentaria pra escrever um troço desses. mas foi um puta elogio, hein?
Ai querido.... era só isso. Resolvi comentar hoje. TO me sentindo... capaz de comentar hoje, meio que exercendo meu direito de me pronunciar sobre qualquer coisa que seja. Sei lá.
um beijo, blog legal esse.
Prezado menino Luciano, eu não me escondo - muito menos propositalmente - eu sou a Lucía do fiapo de vaca e da garrafa verde, amiga do Álvaro. E... Acho que você não entendeu o que eu quis dizer com aquilo de amar. Devo ter sido eu que não soube me expressar.
hahahahaha! de onde você tirou esse nome, Jânio?
hahahahahaahaha...
ficou meio "eu sou o protagonista do livro da minha vida". não era bem isso que eu queria dizer. você entendeu, né?
gostei.
Entendi, entendi.
Esses nomes vêm num surto, meio que expontâneamente. São péssimos, eu sei, mas é o que sai.
E aí, vai postar não, hein!?
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